Cobertura DDW 2012 | Digestive Disease Week

Doenças Funcionais

Dra. Maria do Carmo Friche Passos

CRM: 18599

  • Professora Adjunta da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
  • Doutorado e Pós-Doutorado em Gastroenterologia
  • Coordenadora Científica do site da Federação Brasileira de Gastroenterologia – FBG
  • Coordenadora Científica do Fundo de Aperfeiçoamento e Pesquisa em Gastroenterologia da FBG – FAPEGE
 

Distúrbios funcionais gastrointestinais

Por Maria do Carmo Friche Passos / 23.05.2012 - 13:49hrs

Uma sessão de temas livres, terça-feira (22/05), sobre dispepsia funcional contou com a brilhante participação do Prof. Mauro Bafutto, de Goiânia, que apresentou o seu trabalho intitulado Duodenal eosinophilia: a link between functional dyspepsia and post-infective functional dyspepsia. Dr. Bafutto demonstrou que os pacientes dispépticos funcionais (de modo especial, aqueles com história de infecção gastrointestinal prévia) apresentam aumento da contagem de eosinófilos no duodeno, quando comparados ao grupo controle. Ele discutiu também sobre a possível participação do duodeno na moderna fisiopatologia da dispepsia funcional. Os resultados e conclusões desse estudo foram descritos pelo Dr. Antônio Carlos Moraes e podem ser acessados no hot site, na parte relacionada ao estômago.

Nessa mesma sessão, foram apresentados mais cinco trabalhos que abordaram fisiopatologia e tratamento da dispepsia funcional. Destacamos o estudo realizado pelo Prof. Nimish B. Vakil e colaboradores, da Escola de Medicina e Saúde Pública da Universidade Wisconsin (EUA), que investigou a presença de distúrbios do sono em pacientes portadores de doença do refluxo gastroesofágico (DRGE) e/ou dispepsia funcional. Os autores demonstraram que aproximadamente 50% dos pacientes dispépticos e 67% daqueles com DRGE apresentam distúrbios do sono, devido aos sintomas de refluxo. O sintoma de pirose, quando frequente e intenso, aumenta em duas vezes o risco do surgimento de alterações do sono nos dois grupos de pacientes (especialmente naqueles portadores de DRGE). Não são conhecidos os mecanismos dessas anormalidades do sono na dispepsia funcional e novos estudos nesta área se fazem necessários.

Em outra mesa redonda, Dr. Mark Pimentel, da Universidade de Los Angeles, apresentou seu trabalho sobre a eficácia da rifaximina em pacientes de ambos os sexos, portadores de síndrome do intestino irritável (SII) na forma diarreica ou mista (não constipativa). Inicialmente, o Prof. Pimentel salientou o papel essencial da microflora intestinal na fisiopatologia da SII. Alterações na microbiota se correlacionam com um aumento da fermentação e maior produção de gás intestinal, supercrescimento bacteriano do intestino delgado, irritação da mucosa com possível microinflamação, além de alterações na composição das fezes. A utilização de antibióticos é, dessa forma, benéfica para um subgrupo de pacientes com SII.

Ele continuou a sua apresentação discutindo sobre o racional para o uso da rifaximina nestes casos:

a) é um antibiótico minimamente absorvido;

b) bem tolerado e seguro;

c) tem largo espectro de ação;

d) baixo risco de resistência e de interação com outras drogas;

e) eficaz no tratamento do supercrescimento bacteriano;

f) superior ao placebo no alívio global dos sintomas e na melhora da flatulência em pacientes com SII. Dr. Pimentel apresentou os resultados de vários estudos realizados por seu grupo demonstrando que a utilização de rifaximina 550 mg três vezes ao dia, durante 14 dias produz significativa melhora dos sintomas (especialmente da flatulência), tanto em homens como em mulheres portadores da SII, forma diarreica e mista. Foi também observada uma melhora global dos sintomas nos pacientes tratados com rifaximina quando comparados ao placebo. Os efeitos colaterais foram similares nos pacientes que receberam antibióticos ou placebo e não foram descritos casos de colite pseudomembranosa por Clostridium difficille em pacientes tratados com rifaximina.

É importante salientar que esse grupo de investigadores de Los Angeles chefiado pelo Dr. Pimentel é o que tem maior número de publicações e maior experiência clínica na pesquisa de supercrescimento bacteriano e no tratamento com rifaximina em todo o mundo.

Os distúrbios funcionais gastrointestinais (esofágicos, gastroduodenais e intestinais) foram destaque nos quatro dias do DDW 2012 com excelentes conferências e mesas redondas, sendo motivo também de centenas de apresentações de trabalhos na forma oral e pôsteres. Os maiores avanços nessa área estão relacionados à fisiopatologia que, além de aberrações no eixo cérebro-intestino e nos neurotransmissores, tem agora seu foco na microflora intestinal, anormalidades da permeabilidade intestinal e microinflamação, além de possível correlação com alergia e alteração genética. As novidades na terapêutica atual (tão esperadas por todos nós) devem chegar em breve, a partir desses novos conhecimentos e, nesse sentido, já contamos com modernos serotoninérgicos, novos probióticos e antibióticos. É a nova era do conhecimento dos complexos (mas fascinantes) distúrbios funcionais digestivos. Muitas novidades virão seguramente no DDW 2013! Até lá!

< VOLTAR


6 Comentários a Distúrbios funcionais gastrointestinais

  1. Dr. Orlando Barbosa Paz Filho's Gravatar Dr. Orlando Barbosa Paz Filho
    25 de maio de 2012 at 21:58 | Permalink

    Parabéns! Dra. Maria do Carmo pela forma didática e científica, mas com uma visão voltada para prática clínica de modo claro e preciso!

  2. Ivo Batista Ramos's Gravatar Ivo Batista Ramos
    29 de maio de 2012 at 23:09 | Permalink

    Parabens Dra Maria do Carmo, pessoas tal qual a Sra nós necessitamos muito para nos mantermos informados. IVO.

  3. Ivo Batista Ramos's Gravatar Ivo Batista Ramos
    29 de maio de 2012 at 23:11 | Permalink

    Parabens. Muito bom!

COMENTE